"O Menino da Vila Zara" Artigo de Joselito dos Reis

O Menino da Vila Zara!
*Joselito dos Reis
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O Menino da Vila Zara, bairro residencial de Itabuna corria e brincava alegremente por suas ruas cheias de arvoredos, com os seus amiguinhos. As ruas tinham ainda poucas casas construídas. Por isso muitos espaços e, entre, um lote e outro, os meninos, corriam, colhiam e saboreavam frutas, como: Araçá, Banana da Prata, Maracujá-Ferro, Goiaba, Tamarindo, Manga, jaca, Cajá, Abiu e etc... Mas, o que mais chamava atenção, era uma frutinha do mato, bem pequeninha, do tamanho de um grão de chumbo de espoleta, que eles a denominavam “remela de gato!”. Essa frutinha, quando mastigada, deixava a língua toda de cor azul! Era uma grande diversão para os meninos e meninas daquele bairro tranquilo e de gente boa e simples. As brincadeiras como: jogo de bola e de gude, “triângulo”, “Toque-Toque”, “Pega-Pega”, “Bandeirinha”, ”Impinar Arraia”, “Cozido na Ilha Mutucugê”, “Roda” e “Role, Role”. Esse último, imitando os filmes de cayboy daquela época, onde se destacam os atores; Juliano Gema, Franco Nero; os filmes: Zorro e Tonto, Bud Spencer, Cavaleiro Negro, Fantasma, Bil Kid e muitos outros, completavam aquele mundo de esperança, fantasia e divertimentos... Muitos moradores, também, da época se destacavam e não fogem das nossas lembranças: “Dona Francisca” mãe do cabo Parmena; “Seu Zé Gatinho”, marido de “Dona Dos Anjos”, Pedro Dórea (dono da venda), “Seu Nô”, “Seu Arquias”, um velhinho engraçadinho, por ser baixinho e, que, fabricava “Mané Gostoso”.   Que na realidade, era um bonequinho feito de pau e, através. De duas hastes pulava e fazia pirueta de acordo com os seus movimentos das mãos; uma grande brincadeira, um grande brinquedo...! O Menino da Vila Zara não parava, corria para lá, pra cá! Um verdadeiro vulcão de energia! Andava nas cisternas (cacimbas) de “Zazá”, “Seu Zé”, “Dona Candeinha” e “Seu Henrique”... Essas “Cacimbas”, seus proprietários, vendiam a água, em lombos de animais, em sua maioria jegues, que transportava a água, utilizando carotes, ou em carroças, puxadas pelos animais. Os carotes eram um tipo de vasilhame, especialmente fabricado de madeira para esse fim; O transporte da água para toda a cidade. O Menino, não parava, era um capetinha... Quase todos os dias apanhava de seus pais, que lhe aplicavam, castigos e surras utilizando “o bacalhau” um tipo de taca de sola crua, que servia para amansar burro bravo! De seu pai, que já tinha sido tropeiro. Mas chegando à cidade, resolveu ser comerciante; barraqueiro da Feira-Livre. Isso nos anos 60, quando ainda existia o “Trem de Ferro” ou “Maria Fumaça”. A feira-livre ficava localizada onde hoje estar instalada uma Faculdade (FTC) e que antes funcionou a Prefeitura Municipal. Edifício, esse, construído pelo então prefeito, José Oduque Teixeira, que tinha Fernando Gomes, como seu Secretário de Administração. Era um tempo muito bom, corria muito dinheiro na cidade, pois o cacau estava sempre em alta e com safra farta e garantida, inclusive, vendida na flor! Um negócio da China!... O dinheiro, que não souberam aproveitar, sobrava para tudo, e os suposto coronéis do cacau esbanjavam arrogância e pensavam que o cacau nunca iria se acabar! Olha o resultado ai...
O Menino travesso da Vila Zara, foi crescendo, observando a tudo... Estudava, mas não gostava da escola. Dava o maior trabalho aos professores que, ao contrário de hoje, tinham ordem de seus pais para sofrer qualquer tipo de castigo. Como o Menino gostava, na hora do recreio, tomar banho no Rio Cachoeira, imediações da barragem, construída recentemente (Bairro da Conceição). Com os seus amiguinhos, o banho nas águas cristalinas, eles se divertiam tentando pegar de mão, as piabinhas... Com isso, o Menino,  esqueceu-se do tempo e do prazo do horário do recreio e de retornar à aula... Quando se lembrou da aula, turno da tarde, Escola Humberto de Campos, onde conseguiu seu primeiro diploma de alfabetização, a professora já estava soltando seus coleguinhas, quando ele apareceu!  A professora espantada, pois não tinha notado sua ausência,  o olhou e perguntou:

- Menino isto é hora?
- Me perdoe professora, eu esqueci do horário, tentando pegar as piabinhas do rio!
- Pois você agora vai para a minha casa, e só vai sair de lá quando fizer esse exercício...

Sabe o que era? Era um castigo! O Menino da Vila Zara, teria que escrever a frase: “devo obedecer o horário do recreio”, por mil vezes...
Terminando o castigo por volta das 20 horas, o Menino chegou em sua casa... Todo escabreado. E, para explicar aos seus pais, o atraso! Ele gaguejou, gaguejou... E não conseguiu. Só no outro dia, após ter tomado uma surra de “bacalhau” do seu pai!
– Papai, cheguei tarde porque sofri um castigo, porque fui tomar banho no Rio, atrasei e a professora me mandou escrever mil vezes; “devo obedecer o horário do recreio!”.
 - Bem empregado, está de parabéns, a professora, você tem que aprender a ser homem, ter responsabilidade. Disse seu pai, não aguentando, tanta travessura do Menino, que estava trabalhando na Padaria Santa Fé. O mandou para São Paulo! Ele tinha apenas dezesseis anos! Lá na capital paulista aprendeu uma profissão no SENAC/SENAI e se tornou um grande empresário...

Lembrando-se dos amigos da Vila Zara, tudo por apelido: Pé de Cabra, Dato Babão, Zé Pelanca, Django, Salário, Reisinho, Inchado, Papa Defunto, Zé Carioca, Cancão de Fogo, Zé Bedeu, Atayde, Nego Bolsal, Chocho, Maria Pinote, Miltinho Barrão, Almir Doido, Maria Toloco, Dêdê, Miel, Niguche, João Garrincha, Zé Bedeu, Nego Dema, Zezé Pereba, Papa Sabão, Bicudo, Fon... O Menino da Vila Zara, hoje de passagem por esta cidade, com muita saudade, da sua professora “Bibi” diz: “que bons tempos aqueles, da escola, da chácara de Cearense (hoje o Itabuna Esporte Clube), da vende do Tenente Júlio e D. Maria, do meu rio de água cristalina; meu Rio Cacheira” Tornou-se escravo das lembranças; uma realidade que se tornou ficção! “Onde está o meu Rio Cachoeira?”... Pergunta.

*Joselito dos Reis

Poeta e jornalista                   

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