Cidade de Graciliano Ramos é destruída em Alagoas
(ACERVO DA CASA DO ESCRITOR GRACILIANO RAMOS TAMBÉM FOI DESTRUIDO, UM PREJUIZO INCALCULÁVEL).
As fortes chuvas que arrasaram com diversas cidades em Alagoas atingiram também a pacata e simbólica Quebrangulo, terra natal do célebre escritor brasileiro Graciliano Ramos. Segundo moradores, além da devastação, cerca de 75% da população do município ficou desabrigada, e praticamente nenhuma casa se livrou da inundação.

No domingo, pouco depois das primeiras chuvas, falta de água potável a energia elétrica. Telefones fixos ficaram mudos, e até os celulares dificilment conseguiam completar alguma ligação.

Segundo o prefeito Marcelo Lima, as três pontes da cidade, a sede da prefeitura, a igreja e todas as lojas do comércio local foram destruídas pelas águas.

– A cidade está destruída. Está tudo acabado, estamos inconsoláveis – desabafa, em lágrimas, em depoimento ao site do periódico O Jornal, de Alagoas.

Em situação semelhante estão as cidades de Murici, Branquinha, União dos Palmares, Santana do Mundaú e São José da Lage.

Volta para casa

Enquanto o socorro continua para as áreas mais destruídas do interior do Estado, na capital, as 493 famílias cadastradas pela Secretaria Municipal de Assistência (Semas) começaram a voltar para suas casas.

Quinta-feira, o salvamento de 62 quilombolas que sobreviveram por terem conseguido subir em duas jaqueiras foi um dos assuntos mais comentados do dia na região. Um dos sobreviventes diz que, na hora de decidir ficar em cima da arvore, só opensou na família:

– Na hora da agonia nem pensei na altura – disse Célio Pereira, um dos quilombolas.
por: Aquino Neto horário: 23:45


Estilo de Graciliano Ramos marcou construção do Brasil
Dono de estilo contundente e direto, Graciliano Ramos é um dos mais importantes autores da literatura brasileira, cujo interesse estético é inseparável do comprometimento ético. O escritor é tema de uma dos volumes da coleção "Folha Explica", cujo primeiro capítulo pode ser lido abaixo.

Divulgação

Livro explica o estilo contundente e direto do autor Graciliano Ramos

Seja por suas intervenções no campo político, pelo empenho em favor dos oprimidos ou ainda pela defesa do artista no mundo moderno, Graciliano Ramos reafirma, de modo inconfundível, o vínculo entre literatura e vida.

- Leia crítica "Livro destaca ironia de Graciliano Ramos", publicada à época do lançamento do volume

Assim, "Folha Explica Graciliano Ramos" mostra que ler os livros do escritor alagoano é tarefa fundamental para todos que têm interesse em entender o Brasil --e entender a si mesmos.

Wander Melo Miranda é professor titular de teoria da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais e supervisor do projeto de reedição da obra completa de Graciliano Ramos.

Confira abaixo a introdução do volume:
As Armas Insignificantes
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.
Murilo Mendes

Literatura e experiência confundem-se na obra de Graciliano Ramos (1892-1953) como se fossem a urdidura de uma trama comum. Romances, memórias, contos e textos circunstanciais parecem repetir a afirmação do escritor --"Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou" 1--, chamando a atenção para o espaço autobiográfico em que sua obra se insere. À primeira vista parecerá uma perspectiva restrita, encerrada nos limites de uma subjetividade que reduz o mundo a dimensão muito particular ou a visão demasiadamente referencial. Mas, à medida que avançamos na leitura de livros como Angústia (1936) ou Infância (1945), nos quais traços da personalidade do autor e episódios de sua vida pessoal aparecem fortemente marcados --pela via da ficção ou da autobiografia--, nossa expectativa se transforma.

A aderência textual à vida concreta é acompanhada da superação de seus limites autobiográficos ou referenciais, compondo a química paradoxal da obra de Graciliano Ramos. Visto de hoje, seu compromisso político-partidário é um complicador a mais. Legítimo em suas aspirações e coerente do ponto de vista ideológico --Graciliano pertenceu aos quadros do Partido Comunista Brasileiro desde 1945 até a morte--, seu engajamento retrata um período crucial da história brasileira, que culmina com o Estado Novo. Indiscutivelmente articulado com a prática literária que constitui, em nenhum momento faz essa prática resvalar para as facilidades do panfleto ou ceder à sedução das relações imediatas. Ao contrário, em razão do conflito que apresentam entre texto e história, sujeito e discurso, memória e imaginação, seus livros se abrem a uma série de indagações experimentais que, desde o romance de estréia, Caetés (1933), desautorizam toda sorte de respostas excludentes e definitivas, para nosso espanto e dos próprios narradores colocados em cena pelo autor, sejam eles autobiográficos ou não.

No território minado por onde transitam suas personagens, em busca de uma unidade de antemão impossível no decurso da experiência desdobrada no tempo, não há lugar para ilusões compensatórias, nem para processos conciliadores de integração social. Seres à margem, João Valério, Luís da Silva, os retirantes de Vidas Secas, o menino de Infância, os presos de Memórias do Cárcere, e mesmo Paulo Honório, trazem todos a marca da "desgraça irremediável que os açoita"2, para usar as palavras do escritor, que deles se aproxima solidário, com uma simpatia ora mais ora menos distanciada, sempre comovente na cautela com que se expõe.

Mesmo o recurso à memória, de que o narrador na maioria das vezes se vale, não conduz ao abrigo das certezas apaziguadoras e da verdade incontestável, espaço que é da contradição e da recorrência desintegradoras. No ato de recompor a vida pela linguagem, de ser escrevendo, a idéia do conhecimento de si a que chegam os narradores de Graciliano resulta numa construção móvel e aleatória, fruto de um saber precário, provisório nas suas conclusões e cético no tocante à validade de suas premissas. Talvez por isso nada resista em pé diante do desejo de destruir, segundo Otto Maria Carpeaux, o 'edifício da nossa civilização artificial - cultura e analfabetismo letrados, sociedade, cidade, Estado, todas as autoridades temporais e espirituais"3. Destruição para transformar, para reverter por "linhas tortas" as diretrizes e os valores que o processo de modernização brasileira começava a implantar no país nas primeiras décadas do século 20. Recalcadas pelo poder dominante, regiões sombrias da ordem estabelecida atingem o primeiro plano do texto, que torna visível a violência contra os excluídos, então revelados em sua alteridade e desolação.

Nas brechas abertas numa modernidade assim desencantada, Graciliano, firme na sua disposição de ir contra a amnésia histórica e social, torna efetiva, talvez como nenhum outro escritor entre nós, a possibilidade de uma prática política do texto artístico. Daí o papel fundamental desempenhado pela memória em seus livros. Operadora da diferença e trabalhando com pontos de esquecimento da história oficial, ela se formula como atividade produtiva, que tece com as idéias e imagens do presente a experiência do passado, sempre renovada, refeita, recriada - vida e morte, vida contra a morte.

A possibilidade da reminiscência descortina-se justamente onde a história triunfante dos "homens gordos do primado espiritual"4 procede ao cancelamento do que ficou para trás, ou seja, no detalhe, no pequeno, no insignificante, a partir deles e com eles, como revelam as Memórias do Cárcere, publicadas logo após a morte de Graciliano, em 1953. Se a perspectiva da morte, de fim de caminho, autoriza o autor a levar adiante suas memórias, é o desejo de fazer viver o que estaria morto para sempre, mas que ainda persiste na sua demanda, o que deflagra o processo da escrita. Reviver o passado sim, porém enterrar de vez o que mantém o memorialista encarcerado e o impede de tomar posse efetiva do presente.


O corpo do sujeito --o do preso, mas também o do menino, o dos retirantes-- é o lugar privilegiado onde se marca a história e se enuncia, em carne viva, sem subterfúgios, a violência desmedida do poder. Instrumento de ataque e defesa no embate com o "nosso pequenino fascismo tupinambá",5 o corpo vai além de si mesmo e se faz voz do vivido coletivo, balizando a dura aprendizagem da posição marginal do escritor que teima em manter-se, apesar de tudo, livre, independente e fiel a si mesmo. O instável campo de manobra que a situação de pária social lhe delega desdobra-se em vários níveis de indagações, que vão desde a consciência sofrida, que separa o intelectual da massa com a qual se solidariza, até a relação conflituosa do escritor com o mercado de trabalho.

O espaço de atuação intelectual e artística de Graciliano revela-se intervalar: entre formação burguesa e empenho político a favor do excluído, entre imposições do poder e anseio de transformação, entre qualidade artística da obra e necessidade de sobrevivência do artista. A possibilidade de a literatura realizar uma intervenção diferenciada no campo político, com os instrumentos de que só ela dispõe, reveste-se, na prosa do escritor, da reafirmação do vínculo estreito entre arte e vida, submetida com força de persuasão ao domínio da linguagem, ao território também conflituoso da palavra literária.

A auto-reflexão textual catalisa as preocupações de Graciliano Ramos. O exercício obsessivo e artesanal da linguagem e a lucidez na escolha dos procedimentos narrativos usados impedem a subserviência do texto à realidade imediata e à gratuidade lúdica, abrindo novos caminhos para a representação literária. Há um silêncio que procura fazer-se ouvir, uma fala emudecida a que o narrador procura dar ouvidos, desobstruindo, sem paternalismos, suas vias de expressão. Daí o caráter experimental da narrativa, que ensaia aproximações e recuos diante de imposições retóricas e estereótipos literários, solapados no cerne de sua orientação hegemônica, ou seja, no seu intuito de impor-se como autoridade absoluta - "Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer".6

É dessa forma que Graciliano Ramos contribui para ampliar os limites da narrativa regionalista que começa, por volta de 1930, a retratar o país pela óptica da consciência do subdesenvolvimento e do engajamento político. Pelos livros de escritores como José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego ou Jorge Amado, o romance nordestino impõe-se como nova linguagem e nova modalidade de "interpretar" o Brasil, dessa vez pela via da abordagem ficcional dos impasses regionais. De todo o grupo, o autor de Vidas Secas é, sem dúvida, o que mais avança no sentido de desmontar as estruturas de dominação literária, cultural e política, ao mesmo tempo que confere a seus textos um valor artístico efetivamente inovador.

A estratégia dissimulatória que propicia ao escritor mover-se no interior de um sistema fechado e a ele opor resistência se formula em termos de afrontamento do interdito através da ironia e da redução da linguagem àquele mínimo de recursos que a faz funcionar sem perder a carga explosiva que encerra. Num pequeno texto, "Os Sapateiros da Literatura', Graciliano realça a dimensão utilitária da escrita ao comparar pronomes e verbos a sovelas e ilhoses: "São armas insignificantes, mas são armas".7 É esse movimento que pretendemos mostrar na leitura dos textos do escritor.

1 'Revisão do Modernismo'. Em: Homero Senna, República das Letras. 20 Entrevistas com Escritores. Rio de Janeiro: São José, 1957; p. 238. A entrevista foi publicada pela primeira vez em 1948.
2 'Discurso de Graciliano Ramos'. Em: Augusto Frederico Schmidt et al., Homenagem a Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Alba, 1943; p. 29.
3 'Visão de Graciliano Ramos'. Em: Origens e Fins. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1943; p. 350.
4 Memórias do Cárcere. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953; v. 1, p. 7.
5 Memórias do Cárcere, v. 1, p. 6.
6 Memórias do Cárcere, v. 1, p. 6.
7 'Os Sapateiros da Literatura.' Em: Linhas Tortas. São Paulo: Martins, 1962; p. 191.

"Folha Explica Graciliano Ramos"
Autor: Wander Melo Miranda
Editora: Publifolha
Páginas: ९६
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

Nossos sentimentos:

O Clube do Poeta Sul da Bahia penhoradamente, juntamente com a população de Alagoas, lamenta a destruição da casa onde nasceu e residiu o escritor Graciliano Ramos, quando nas recentes enchentes o seu acervo literário foi totalmente destruido. Assim, como também, todos aqueles que perderam os seus amigos e familiares, numa grande tragédia. Mais a vida continua e Deus sabe o que faz; Quem não sabe são os homens... Por isso Seu Filho Jesus, rogou ao nosso Pai Supremo, essas palavras: "Pai, perdoa-os, eles não sabem o que faz"

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