Corpo de José Saramago é velado na Câmara de Lisboa
Escritor, único Nobel de Literatura da língua portuguesa, morreu na sexta-feira aos 87 anos
iG São Paulo com EFE 19/06/2010 11:51
Foto: Getty Images
Saramago durante conferência sobre o livro Ensaio sobre a Cegueira, em 2009
O corpo do escritor português José Saramago, morto na sexta-feira aos 87 anos, está sendo velado na Câmara Municipal de Lisboa, em Portugal. O velório vai acontecer durante todo o dia de hoje e na manhã de domingo. Às 12h do horário local (9h no horário de Brasília), o corpo será levado para o Cemitério do Alto de São João, onde será cremado. Fontes da família do escritor anunciaram que suas cinzas serão levadas depois para sua cidade natal, Azinhaga, na região central do país, e para sua casa na ilha espanhola de Lanzarote, onde serão enterradas junto a uma oliveira.
O féretro de Saramago foi recebido na porta do prédio pelo prefeito, Antonio Costa, um grande admirador do escritor. Também acompanharam vários membros do governo português e a ministra de Cultura espanhola, Ángeles González-Sinde, entre outras autoridades nacionais e de países lusófonos.
O corpo do escritor, que chegou em um avião da Força Aérea portuguesa a partir da ilha espanhola de Lanzarote, onde morreu nesta sexta-feira aos 87 anos, recebeu honras militares no aeroporto, em meio a um imponente silêncio. De lá foi transferido até a Prefeitura em um cortejo fúnebre custodiado por um destacamento de carros da Polícia que vela também o velório, com uniforme de gala, no salão de honra municipal.

Com um tratamento próprio de um dignatário de Estado, o cortejo fúnebre do único Nobel português passou lentamente diante da sede da Fundação José Saramago de Lisboa, que fica perto aeroporto de Portela. Coberto pela bandeira portuguesa, o caixão, que foi levado nos ombros por um grupo de soldados até o carro fúnebre no aeroporto, foi introduzido na Prefeitura por outra guarda de honra em meio a aplausos dos presentes.
Desde a saída de Lanzarote, onde o Nobel vivia desde 1993, acompanharam o corpo a bordo do avião militar português a ministra da Cultura lusa, Gabriela Canavilhas, a viúva do escritor, Pilar del Río, a filha de seu casamento anterior, Violante Saramago, e vários familiares e amigos próximos.
Foto: © AP
Caixão de José Saramago chega à Câmara Municipal de Lisboa
O Governo do primeiro-ministro socialista José Sócrates declarou hoje e amanhã luto oficial nacional pela morte de Saramago, considerado uma das grandes referências culturais de Portugal e o autor contemporâneo que mais contribuiu para projetar mundialmente as letras lusas. Personalidades e instituições de todos os âmbitos da vida pública lusa continuaram hoje lamentando sua morte, entre estes os partidos da esquerda marxista e até mesmo a Igreja Católica, que apesar das polêmicas obras do Nobel expressou seu pesar pelo falecimento. Precisamente foi a reação católica diante de suas obras, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, e sua retirada, em 1992, da candidatura a um prêmio europeu por parte do Governo luso que levou Saramago a mudar-se para Lanzarote, embora tenha voltado frequentemente ao país e recebeu nele inúmeras homenagens.

As mostras de pesar pela morte de Saramago foram lideradas pelo presidente português, Anibal Cavaco Silva, e pelo primeiro-ministro José Sócrates, que junto a muitas personalidades demonstraram sua tristeza pela morte do grande escritor. Cavaco, líder histórico do conservador Partido Social Democrata (PSD), pediu que as gerações futuras "leiam e conheçam sua vasta obra literária" e considerou Saramago um escritor de projeção mundial merecedor do Nobel de Literatura que ganhou em 1998 e que será sempre uma figura de referência da cultura portuguesa.Já o socialista Sócrates qualificou a morte do autor de Ensaio Sobre a Cegueira como uma "perda" para a cultura de Portugal e para todos os portugueses, para os quais era motivo de orgulho.

O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, disse que Portugal fica "mais pobre" sem Saramago, cuja obra qualificou de "atemporal". No povoado natal do escritor, a Prefeitura içou a bandeira portuguesa a meio mastro, enquanto vários ministros da Cultura de países lusófonos, que realizavam uma reunião em Sintra, perto de Lisboa, fizeram um minuto de silêncio em sua homenagem. Outras muitas personalidades lusas, desde o presidente da Federação de Futebol, Gilberto Madaíl, até o centenário cineasta Manoel de Oliveira, lamentaram a morte de Saramago e o grande vazio que deixa na cultura portuguesa e universal.

Saramago deixou um livro inacabado, um romance sobre o tráfico de armas cujo título é Alabardas, Alabardas! Espingardas, Espingardas!, um verso do grande poeta e dramaturgo português Gil Vicente. Após Caim (2009), o escritor iniciou o novo romance, que começou em bom ritmo mas acabaria ficando paralisado pela insatisfação do escritor com o título - ele costumava bolar os títulos antes de escrever os textos. Após tanto lhe custar o título, quando enfim decidido, Saramago retomou com ímpeto o romance, que, segundo comentou a seus amigos, estava dando mais trabalho que os anteriores.

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